Itaúnas – a capital nacional do Forró pé-de-serra

Um post que reúne as melhores lembranças dos meus vinte e pouquinhos: forró, viagem, oceanografia e festas tradicionais. Dê o play neste link e leia o post.

Escondida no norte do Espírito Santo, a menos de 20 km da Bahia fica a vila de Itaúnas, a capital nacional do Forró – e pela lógica, a mundial! rs. Não existe um cantor de forró que não tenha ido a Itaúnas, ou no mínimo, composto uma música sobre a pequena vila:

“Itaúnas quando o sol se põe ouço segredos que o vento traz, ao subir as dunas e olhar pro mar e o simples desejo de te amar demais (…) ouvir o passo preto logo cedo cantar de manhã”

ou ainda

“Acordo na casa da vó Doróta
Tem pãozinho com ricota
Para o dia começar
Eu tomo uma ducha bem gelada
Visto a sunga e o chapeuzinho
E me ponho a caminhar

Eu ando pela vila de Itaúnas
Lá ao longe eu vejo as dunas
Onde vou me energizar
Da ponte, dou um mergulho bem gostoso
E do rio eu saio novo
Para a trilha atravessar”

Foto clássica das Dunas de Itaúnas
Foto clássica das Dunas de Itaúnas

Elba Ramalho, Alceu Valença, Trio Lubião, Forró Chama Chuva, Marinês, Dominguinhos, Mestre Zinho, Geraldo Azevedo, Arleno Farias, Xangai, Trio Virgulino…todos eles estão acompanhados das zabumbas, sanfonas e triângulos, pelo menos durante o festival (link do facebook. Clique aqui para o link do site), que acontece nas duas últimas semanas de julho, e são unânimes em dizer que a tradição nordestina do forró pé-de-serra é mantida nessa terra quase-nordestina.

Para quem gosta de forró, Itaúnas é parada obrigatória: você acorda ouvindo forró, vai para o forró da praia, volta para casa, se arruma e vai no esquenta do forró na praça para ir no forró principal do Bar do Tatu e depois fazer o after no forró da ponte. Para quem não gosta, mas gostaria de aprender, em Itaúnas isso vai acontecer, os nativos adoram ensinar as pessoas de fora. E para quem não gosta, vá para Itaúnas aprender a gostar sem reclamar! Brincadeira, ainda rola muito reggae e agora na vila já tem opção de samba-rock no Crepe Samba Kone.

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A vida difícil em Itaúnas

Mas Itaúnas não é só Forró: a vila é uma verdadeira aula de História Ambiental!

Os primeiros a chegar em Itaúnas foram os Tupiniquins. Com a Revolta dos Tamoios, e a morte de quase todos eles, Itaúnas foi ocupada também por Botocudos, Mashacali, e Pataxós. Como o Espírito Santo serviu até a metade do século XVIII como um paredão contra as invasões estrangeiras para roubar o ouro de Minas Gerais, os grupos indígenas conseguiram se manter protegidos. Como é Brasil, faltavam os africanos para a festa ficar completa, e sua presença fica bem marcante no caminho até a vila, cheio de Quilombos. E aí viveram em harmonia, com a agricultura de subsistência, pesca e a madeira que era transportada do interior do Espírito Santo até Conceição da Barra, tendo em Itaúnas um ponto de parada. Quer dizer, essa harmonia foi quebrada com a chegada da Aracruz Celulose na região, que roubou as terras dos quilombolas e dos povos indígenas, tirando a vegetação exuberante de restinga para colocar eucalipto no lugar.

A Vila que aí se estabeleceu, entre o mar e o rio, numa faixa de vegetação de restinga foi retirando as árvores para construir suas casas e fazer roçado, e maior desmatamento ainda foi quando a Prefeitura de Conceição da Barra ordenou a derrubada de árvore para trazer “desenvolvimento para a região”. Muita areia disponível, com vento nordeste soprando constante, e sem a proteção das árvores foi a faca e o queijo para a formação das dunas. No Parque é possível ver fotos lindas e tristes dos moradores tirando areia de dentro de casa todos os dias até um ponto em que toda a vila foi soterrada e eles se mudaram para trás do Rio Itaúnas (Pedra Preta, em Tupi). Dependendo do vento, ainda é possível ver as únicas coisas que sobraram embaixo das dunas (que tem uns 30 metros de altura), que é o mastro de São Sebastião (da igreja) e o cemitério, ambos do final do século XIX.

Neste post conto um pouco melhor como foi acontecendo o processo, a partir de um trabalho que fiz junto com o IEMA – Instituto Estadual do Meio Ambiente.


Agora vamos às informações básicas:

Como chegar: A capital mais próxima de Itaúnas é Vitória, Espírito Santo. De Vitória são 258 km, passando por vários pontos muito interessantes, dentre eles as lagoas de Linhares (vou escrever futuramente, prometo).

Querendo conhecer melhor o litoral do estado, é só se embrenhar pelas praias de Urussuquara, Barra Nova, Regência, Barra Seca, Guriri…são todas muito bonitas e com pouca gente!

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Para chegar de ônibus o caminho de Vitória é pegar um ônibus para São Mateus ou Conceição da Barra (preço médio R$54,00). As duas cidades são interessantes de se conhecer também. São Mateus tem um centro histórico bem bonito e organizado, e é sede da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) no norte do estado, então já tem uma vida noturna consolidada, além de ser ponto de entrada para Guriri. De São Mateus tem ônibus para Conceição da Barra, e você pode descer no meio do caminho para pegar carona (todo mundo faz isso), ou ir para Conceição, de onde sai ônibus/van o dia todo.

Caminho Vitória - Itaúnas
Caminho Vitória – Itaúnas

Quando ir: Como disse, o grande atrativo de Itaúnas é o forró, que acontece nas duas últimas semanas de julho, mas em qualquer feriado é garantido pelo menos o forró da noite no Buraco do Tatu ou no Bar Forró de Itaúnas. Ouvi dizer que na virada tem ficado muito cheio e não fica tão bom assim, mas ir para as dunas fazer a contagem regressiva para o ano novo é lei!

Como a cultura negra e indígena misturadas em Itaúnas não iam passar sem deixar sua marca, entre os dias 16 e 20 de janeiro Itaúnas tem uma das festas mais bonitas e mais marcantes para a cultura capixaba: o Ticumbi ou Baile de Congo (e aqui, fotos), festa para São Benedito e São Sebastião entre 16 e 20 de janeiro.

São Benedito era o padroeiro da cidade velha. Quando os europeus chegaram, principalmente os padres italianos, não gostaram da ideia de um santo negro como padroeiro e mudaram para São Sebastião. Do dia para a noite um santo foi jogado no rio e o novo foi posto no lugar. O resto deixo para o depoimento de uma moradora:

“O povo, crente em São Benedito, ficou fulo e resolveu pregar uma peça: substituíram o vinho sagrado, sangue de Cristo, por cachaça e alcoolizaram o padre, que fez a missa bêbado. Passado o pileque, ele disse que nunca mais apareceria naquela cidade, rogou uma praga e o resto já se sabe.”

De qualquer forma, hoje Itaúnas é dos dois santos! A festa é muito importante para a cultura da cidade desde a época de Itaúnas velha, e é quando os moradores recebem os familiares do interior para celebrar e brincar com o Ticumbi, Jongo e o Alardo. O Jongo (aqui dá pra ver melhor, mas é em Vitória) é conhecido com o avô do samba, e o Alardo é um folguedo que revive a guerra entre os cristãos e mouros, tomando toda a cidade – inclui luta de espadas, luta corporal coreografada e a vitória dos cristãos.

Fora essa época, a Folia de Reis (entre 20 de Dezembro e 6 de Janeiro) também é bem tradicional de Itaúnas.

Praça principal de Itaúnas, onde acontece as festividades
Praça principal de Itaúnas, onde acontecem as festividades

Onde ficar: São basicamente dois tipos de hospedagem em Itaúnas: camping e pousada. O segredo é ir andando e perguntando onde tem vaga, sendo que os campings custam em média de R$20 a R$30 e as pousadas – de R$100 a R$200 a diária do casal. O legal é que em 2004 foi proibida a construção de mais pousadas para não descaracterizar a cultura local, e apesar de não ser difícil conseguir lugar para ficar, se for nessas épocas é melhor reservar com antecedência.

Achei um site que pareceu bem completo, faz crítica a várias pousadas em Itaúnas: http://www.rotascapixabas.com/2010/10/02/serie-especial-itaunas-5-onde-ficar/

O que fazer: Itaúnas tem muita coisa para fazer. Já começa pelo caminho até a vila, que é muito interessante observar a mata. Chegando na vila, é só tirar o sapato (o mais arrumado da vila anda de chinelo já que é tudo de areia) e ir para a sede do Parque Estadual de Itaúnas (PEI). No PEI, informações sobre a biodiversidade do lugar, a história da ocupação indígena e africana, incluindo os objetos usados e já datados e as fotos dos habitantes de Itaúnas velha, muito interessante.

Lá é também a sede do Projeto Tamar, que cuida da preservação das tartarugas marinhas. O Espírito Santo é o único estado em que as 5 espécies de tartarugas desovam, e em Itaúnas é possível encontrar a tartaruga oliva, a verde e a de pente. Se informe no Parque quando vai ter soltura dos filhotes, que é quando eles vão para a água, é muito emocionante.

As dunas são a principal atração do parque – força na panturrilha que você chega.

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Atrás das dunas, a praia. Bem-vindo à mistura do Espírito Santo com a Bahia. Sente e relaxe.

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Ou não sente – dance forró, que já vai rolando desde a entrada do parque, olha aqui como acontece.

Fora a praia, são várias as trilhas que você pode fazer pelo parque. É fundamental andar pelo alagado para ouvir o canto do Passo Preto, ver as preguiças, observar os falcões, corujas, águias (até onça já viram por lá) e as árvores da restinga. Triste é ver a floresta inteira de eucaliptos que a Aracruz Celulose plantou ali na década de 80, mas vá um dia andando e outro de carro até chegar ao Riacho Doce, a divisa entre o ES e a BA. Uma votação do site ViajeAqui elegeu essa praia como a segunda praia deserta mais bonita do Brasil. E olha que é bonita mesmo!

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Para quem quiser se aventurar um pouco mais, os doze quilômetros que separam Riacho Doce de Itaúnas podem ser feitos a pé ou de cavalo, passando por trechos muito bonitos, como o Buraco do Bicho:

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O pessoal do Casinha de Aventuras faz um trabalho bem legal de trilhas com conscientização ambiental, por um preço bem acessível. Dá uma checada no site.

Umas dicas importantes:

  • Não tem caixa em Itaúnas, nem posto. Abasteça o carro e seu bolso em Conceição da Barra. Mas posto de saúde tem, e funciona bem;
  • A temperatura das dunas pode ser muito alta, então tem que ir de chinelo;
  • Procure pela Cachaçaria do Sebastiam. O cara é uma figura;
  • Ir pra Itaúnas e não pegar bicho de pé (inclusive nome de banda de forró local) é difícil. Leve uma bucha ou desencane e tire em casa mesmo!
  • Rola capoeira muito boa na frente da igreja;
  • Negar uma dança é falta de educação. Se não quiser dançar, não fique na pista, sente.

E boa viagem!

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2 comentários sobre “Itaúnas – a capital nacional do Forró pé-de-serra

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