As dunas de Itaúnas vão para aonde?

Sempre tive uma ligação muito forte com Itaúnas, ES. Minha bisavó nasceu em Itaúnas velha e teve que se mudar, pois sua casa foi lentamente soterrada pelas dunas. Minha primeira pesquisa na faculdade de Oceanografia foi lá, e quando estava no mestrado, fui chamado pelo pessoal do Parque Estadual de Itaúnas (PEI) para responder a seguinte pergunta: as dunas de Itaúnas, que já soterraram a vila antiga, podem ainda soterrar a vila nova?

Pois fui tentar responder de uma maneira simples e repasso aqui.

Primeiramente, explico o que são as dunas: um depósito arenoso formado pela ação dos ventos quando há areia em abundância – não acontece em um lugar que sofre erosão, por exemplo. Depósito é onde os processos naturais (vento, onda, os rios, etc.) depositam e ganham material. Erosão é o processo onde um lugar perde material, no caso, areia.

As dunas começam a se formar quando o vento carrega grãos de areia, que perdem sua velocidade quando encontram alguma barreira (podendo até ser um objeto). Quando o vento é forte e constante – o que quer dizer mesma direção e sentido por um longo tempo – as dunas se estabilizam.

Quando as dunas se estabilizam os grãos de areia vão se empilhando sobre os demais, e assim aumentam a duna de tamanho e comprimento, que pode variar de menos de um metro (como a maior parte do litoral capixaba) a dezenas de metro e centenas de quilômetros de extensão, como os Lençóis Maranhenses.

As dunas são importantes porque protegem a praia contra as subidas do mar, como quando entra uma ressaca. São também um hábitat único para diversas espécies de aves, plantas, tartarugas e outros, além de servirem como filtros naturais para a água da chuva e subterrânea, podendo até mesmo formar regiões de alagados, o que realmente acontece em Itaúnas na região dos alagados. Por conta disso tudo as dunas são Áreas de Preservação Permanente, como os manguezais, encostas e topos de morro, nascentes de rio…e são protegidas por lei independente de um deputado ou governante decretar que ali é uma reserva legal.

As dunas de Itaúnas.
As dunas de Itaúnas.

Mas as dunas podem também dar uma dor de cabeça para os gestores públicos e ambientalistas. Em períodos de vento mais fraco, se não houver muita vegetação, os grãos começam a subir a duna ao invés de serem depositado ao pé dela. E foi o que aconteceu em Itaúnas (e também nas Rendeiras, em Florianópolis). As árvores foram retiradas da restinga na frente da praia no começo da década de 1950, mas principalmente na década de 1970, e com um vento Nordeste constante no verão e muita areia disponível, foi um prato cheio para a formação daquelas dunas, cobrindo a vila que existia.

Agora voltando à pergunta: e quanto a vila atual, ela vai também ser engolida?

Para responder à pergunta, comparei fotografias aéreas da década de 1970 com fotografias recentes com um software próprio para isso. O uso das fotografias aéreas é uma ferramenta muito importante para quem quer entender processos naturais, e muitas delas estão disponível de graça. Na década de 1970 houve o Projeto RadamBrasil, o primeiro esforço em escala nacional de fotografar todo o país em um avião.

Na década de 1970 a vila antiga (hoje soterrada pelas dunas como falei aqui) já mostrava um processo de soterramento, restando só 30 casas não soterradas. A igreja de São Sebastião, a mais antiga, já estava soterrada e a igreja nova já em construção. A vila atual, que se mudou para trás do rio começava a ser ocupada, contando com menos de 10 casas. Em 2012 conversei com uns moradores da Vila, que me disseram que muitos que moravam na vila antiga não passaram para a atual, preferindo ir para Vitória ou Conceição da Barra.

O que vi nas fotos é que durante os anos de 1971 a 2008, a área das dunas aumentou 96 mil m2 (ou 9,62 hectares). Uma parte considerável da vegetação das dunas foi perdida nas proximidades da antiga vila, e segundo alguns moradores, não houve desmatamento da vegetação que cobria as dunas, mas sim um processo natural. Isso deixo para os historiadores.

DSCF0435
E aqui jaz a vila antiga

De qualquer forma, um lugar interessante para ver como a retirada da vegetação influencia na formada das dunas é no Buraco do Bicho (que falei no outro post sobre Itaúnas, fica a menos de 1 km de distância). Essa feição é conhecida como blowout, uma feição erosiva/deposicional (os dois processos acontecem juntos) com um formato semicircular ou alongado no meio de um campo de dunas. São muito comuns nos locais onde há ventos de alta energia.

Eles começam a se formar quando há uma redução de vegetação e vento soprando forte. Os ventos vão então ficando mais fortes por afunilamento, e vão retirando a areia desse local e depositando ao seu lado, daí o formato semicircular. Esse efeito só para quando o vento escava tanto e tira tanto a areia que atinge o lençol freático, deixando o formato assim, ó:

O Buraco do Bicho - zona de Blowout
O Buraco do Bicho – zona de Blowout

É possível inferir que as dunas de Itaúnas (as mais famosas) provavelmente começaram com um blowout, logo, o Buraco do Bicho pode também formar novas dunas tão grandes quanto as principais.

caminhos
Clique para aumentar

Nesse mapinha aí de cima dá para ver que marquei 3 caminhos. O Caminho 1 representa a maior distância percorrida pelas dunas em 37 anos em direção a Noroeste, o Caminho 2 foi o maior caminho que as dunas percorreram no mesmo período em direção a sudoeste e o Caminho 3 foi um caminho que tracei de menor distância entre as dunas e a vila recente.

Agora pense comigo: para a duna andar para norte, o vento tem que soprar empurrando a duna para o norte, certo? Mas na oceanografia a convenção é de chamar o vento pela direção que ele vem, e as correntes pela direção que ela vai. Ou seja, o vento sul vem de sul e vai para norte – empurrando a duna para norte – e tem o mesmo sentido de uma corrente norte, que vem de sul e vai para norte.

Dessa maneira, o Caminho 1 é maior distância percorrida pelas dunas em resposta ao vento Sudeste (andando para Noroeste) e o Caminho 2 é a maior distância percorrida pelas dunas em resposta ao vento Nordeste (andando para Sudoeste). Na região o vento de Nordeste sopra a maior parte do tempo, mas é mais fraco do que o vento de Sudeste, que só aparece quando há frentes frias, mas entra com toda a força.  Para ajudar, vai uma colinha aí:

Explicação didática!
Explicação didática!

Para comparar, em Cabo Frio as dunas respondem mais ao vento de Nordeste, enquanto as dunas de Florianópolis respondem mais ao vento sul, que é bem mais forte nesta região. No Rio Grande do Norte o que domina são os ventos alísios de sudeste (um tipo especial, já conhecido pelos navegadores portugueses). E olha a direção que as dunas tomam:

Comparação das direções das dunas
Comparação das direções das dunas

Voltando pra Itaúnas, sabendo que com ambos os ventos (NE e SE) as dunas “andaram” 180 m em cada direção entre 1971 e 2008, isso dá uma média de quase 5 metros por ano, e assim dá para calcular quando e se elas um dia vão atingir a vila nova. Além da cidade nova, as dunas estão avançando também para dentro da área de alagado, uma área extremamente sensível e rica em biodiversidade. E isso já está acontecendo, infelizmente.

Pois bem, se os ventos continuarem soprando com a mesma força e direção, se as dunas andarem na mesma direção e ainda se houver bastante areia sobrando, as dunas demorariam 147 anos para avançar sobre a cidade nova!

E o que pode ser feito?

Bom, quando fui lá em 2012, os funcionários do parque já estava tomando umas iniciativas, como jogar palha de coco moído para fornecer matéria orgânica para o solo, assim crescendo vegetação que ajuda a barrar o transporte de areia. Isso diminui a mobilidade das dunas.

Depois de um ano voltei e as cercas estavam acumulando areia nelas, um bom sinal: a vegetação consegue conter bem o avanço de dunas. Agora é monitorar e ver o que vai acontecer!

Cercas e palha de coco para conter o avanço das dunas
Cercas e palha de coco para conter o avanço das dunas

Uma outra medida muito importante que já foi feita foi a de proibir a caminhada em qualquer lugar do campo de dunas. É claro que é muito legal fazer sandboard nas dunas, que andar por qualquer lugar à vontade e ficar pulando nas dunas também, mas em uma cidade em que o turismo é principalmente ambiental, então devemos seguir algumas regras básicas.

Quando uma pessoa anda sobre as dunas, está ajudando na sua mobilidade e acelerando esse processo de caminhada das dunas. Mas não é uma pessoa só, já que Itaúnas é um dos pontos principais de turismo no Estado. Então respeite essa regra e ande apenas onde já há trilhas demarcadas! A zona de alagado com toda sua biodiversidade e a cultura da vila nova de Itaúnas já estão sofrendo com essa mobilidade das dunas.

E quando for a Itaúnas, se informe sobre a história do local, converse com os moradores para perguntar as histórias antigas (eles são super receptivos e adoram conversar) e aumente sua consciência ambiental. Conhecer o passado é muito importante para preservar o futuro!

E boa viagem!

Obs.: Quem quiser ler mais sobre esse trabalho, é só mandar um e-mail que eu disponibilizo (nerycn@gmail.com)

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3 comentários sobre “As dunas de Itaúnas vão para aonde?

  1. Não sei como vim parar aqui nesse blog rs, mas adorei a sua forma de escrever, morei em Itaúnas dos 8 aos 15 anos, e hoje, com 19, ainda continuo voltando sempre por achar que lá é o meu lugar no mundo ❤ e olha que estranho, nesse tempo todo nunca parei pra pensar se as dunas iam de fato, um dia, atingir a vila ahhaha achei mt bom o texto, bem explicativo, mas de doer o coração de saudade

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