Phonsavan (ໂພນສະຫວັນ) 40 anos depois

No dia primeiro de maio deste ano os Vietnamitas comemoraram os 40 anos do fim da guerra que destruiu o país entre os anos de 1955 e 1975. Durante 20 anos a Frente Nacional pela Libertação do Vietnã (FNLV) e a República Democrática do Vietnã (ao norte, apoiada pela China, Coréia do Norte e a União Soviética) estiveram em confronto com a República do Vietnã (ao sul, apoiada pelos Estados Unidos).

A comemoração marca o dia em que as duas repúblicas foram unificadas na tomada de Saigon (hoje cidade de Ho Chi Min) sob o nome República Socialista do Vietnã, depois de deixar um saldo de dois milhões de civis e militares Vietnamitas e 58 mil militares norte-americanos mortos.

Mas por que falar do Vietnã num post sobre uma cidade no Laos? Procure na internet termos como “The secret war in Laos” (A guerra secreta no Laos) e “The most secret place on Earth” (O lugar mais secreto do mundo) para entender.

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Mapa do Laos

Por ser o único país do sudeste da Ásia que não tem saída para o mar, a República Democrática Popular Lao faz fronteira com o Vietnã (leste), Camboja (sul), Tailândia (oeste), Mianmar (noroeste) e China (norte).

A história moderna do Laos é dividida em quatro partes:

  • Entre os séculos XIV e XVIII, o reino de Lan Xang, que formou a identidade do país. Era conhecido como “O reino dos mil elefantes sob um guarda-sol”. Laos significa “reino dos mil elefantes”;
  • Em 1893, o três protetorados franceses – Luang Prabang, Vientiane (a capital moderna) e Champasak, na porção que ficou conhecida como Indochina;
  • Em 1954 o país conseguiu a independência da França como uma monarquia constitucional.
  • Em 1975 o governo do Lao Pathet de ideologias comunistas começou a governar o país.

Então, para começar, nada a temer por ser um país comunista: ninguém vai te prender, te matar ou te comer vivo. Na verdade, de todos os países que já visitei, o Laos é o que encontrei pessoas mais simpáticas, dispostas a ajudar e sorridentes. Tinha ouvido isso de todas as duas pessoas que já haviam estado e foi o que me motivou a ir lá. Como resultado, voltei apaixonado pelo país e prometo ir outra vez!

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Barzinho no Laos
Jogando bocha com os novos amigos
Jogando bocha com os novos amigos

Infelizmente, os índices sociais do país não são animadores. Grande parte da população de quase 7 milhões de habitantes – equivalente ao estado de Santa Catarina – em sua maioria não tem pleno acesso à água potável, sistema de saúde, educação e saneamento básico. Por outro lado a desigualdade social é muito menor.

Apesar de nos últimos anos a economia do Laos ter crescido significativamente, a mortalidade infantil é alta, não tem muita infraestrutura (as estradas são péssimas) e o país é basicamente agricultor, e vem sofrendo graves invasões culturais por parte da China, a quem se submete economicamente.

E aí voltamos à guerra. É triste começar a escrever sobre o Laos justamente nesse ponto, mas é a realidade do país. Em 1962 os EUA e mais 13 países assinaram um tratado de não agressão ao Laos devido a sua neutralidade na Guerra do Vietnã. O acordo, entretanto, nunca foi cumprido. O país foi atacado continuamente ao sul pelos EUA, já que a FNLV levava pessoas e suprimentos para o sul do Vietnã usando rotas no Laos. Já o norte era constantemente bombardeado por ser base do exército Pathet Lao, que apoiava os norte-vietnamitas. A maior causa dos bombardeios, entretanto, era muito mais fútil que essas: quando aviões norte-americanos que vinham da Tailândia (aliada) atacar o norte do Vietnã e não tinham visibilidade ou perdiam seu alvo, simplesmente “largavam” as ogivas em qualquer parte do Laos. E por “qualquer” inclui escolas, hospitais, terras de agricultores, ou seja, zonas civis em geral.

Mulheres laosianas
Mulheres laosianas

Até 1975 estima-se que 9 milhões de bombas de fragmentação foram jogadas no Laos. Essas bombas, pequenas como uma bola de frescobol, foram a nova invenção dos EUA junto com o Agente Laranja nessa guerra. Eram levadas por ogivas que se abriam soltando aproximadamente 1000 delas, que deveriam girar 200 vezes e explodir no ar. Como nem todas conseguiam atingir esse número de giros ou caíam em terrenos pantanosos, não explodiam, e como consequência, até hoje há lugares que você não pode andar pois não foram inspecionados contra a presença de bombas.

Bombas de cluster - as ogivas ficam espalhadas nos jardins da cidade como enfeites
Bombas de cluster – as ogivas ficam espalhadas nos jardins da cidade como enfeites

Não espere uma cidade turística: Phonsavan é a capital da província de Xiangkhouang, e sua economia é baseada na agricultura. O clima me pareceu um pouco triste no começo, mas quando você vê a garra que o povo Laosiano tem e conhece outros aspectos da cidade, a figura muda, e até te dá uma fé na humanidade.


Como chegarFomos parar em Phonsavan vindo de Luan Prabang no caminho até Hanoi (Vietnã). A distância entre as duas primeiras é de apenas 260 km, mas o caminho não é fácil. Pense num caminho com muitas curvas e multiplique por 5 – posso dizer sem medo de exagerar que não tinha mais de 500 metros de reta, já que a região é o Planalto do Laos. Fomos de Kombi e demorou umas 5 horas, com paradas para as pessoas que passavam mal rs.

O Laos tem 5 aeroportos, então é possível chegar de avião por Luang Prabang ou por Ventiane. De lá, o resto é só seguir via terrestre mesmo (mas trem também não tem). A passagem custou algo em torno de 20 reais.

Onde ficar: Chegando na cidade de Phonsavan, é fácil andar por ali perguntando o preço. Na cidade até tem albergue, mas um quarto com 6 pessoas ficava 5 dólares mais caro do que um quarto individual em um hotel com café da manhã ao lado. Acabamos optando pelo hotel mesmo e pagamos 13 dólares.

O que fazer: Assim que chegamos em Phonsavan, já fomos conhecer a sede da Mines Advisory Group, uma ONG local que trabalha para desarmar bombas e dar suporte às vítimas de UXOs (Unexploted Ordenances, as bombas que não explodiram e viraram minas terrestres). Foi o primeiro soco no estômago: seu fundador, de 26 anos de idade, perdeu seus dois braços numa explosão de UXO enquanto preparava com enxada seu campo de arroz às oito da manhã; às duas da tarde conseguiu ser atendido em um hospital que não tem água (a luz apenas cinco horas por dia). A médica de plantão achou que ele iria morrer, já que estava muito desidratado e não tinha condições de atendê-lo, mas sobreviveu.

Quadro das vítimas de UXOs, que é renovado constantemente. Essas pessoas buscam auxílio das ONGs para poderem ser reinseridas no mercado de trabalho.
Quadro das vítimas de UXOs, que é renovado constantemente. Essas pessoas buscam auxílio das ONGs para poderem ser reinseridas no mercado de trabalho.

Depois de assistirmos alguns vídeos, fomos andar de moto pelas cidades em volta, que não conseguimos pronunciar o nome. O aluguel da moto era de 3 dólares a diária.

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Rolezinho de moto – o aluguel dava uns 8 reais por dia

No caminho é interessante reparar como a guerra virou algo natural para eles. As jardineiras são feitas de torpedos, as crianças brincam com bombas desativadas, e o resto virou enfeite. Em um dos documentários que vimos, uma senhora se dizia “surpresa com a cara de surpresa” dos gringos que foram lá e viram essa situação. Para ela que sempre morou ali, isso era normal.

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Centro de Turismo em Phonsavan
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Jardim de uma casa em Phonsavan

Uma das razões de pegarmos a moto é porque ao sul de Phonsavan, em Muang Khoun, fica a sede do Império Phuan, com templos e ruínas do século XIII. Com a guerra da Indocinha (contra a França) muita coisa foi destruída, e dentre os templos só restou o de Wat Piawat.

Este foi o único templo Budista que restou na região após os bombardeios
Este foi o único templo Budista que restou na região após os bombardeios

Perto do templo tem também uma estupa muito bonita. Pelo que entendi, as estupas são estruturas em formas geralmente cônicas construídas para homenagear um falecido. No Laos e em todo o sudeste da Ásia, o Budismo Teravada é o predominante, e na China é o Mahayana. Neste link tem umas informações legais sobre as diferenças dos dois.

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Estupa do século XII do reino Phuan

Voltando pelo mesmo caminho, fomos conhecer o Plain of Jars, umas estruturas de calcário que parecem grandes jarros. A história mais legal e interessante diz que os gigantes que viviam na região usavam essas jarras para fazer arroz, enquanto a história mais chata diz que elas são da idade do Ferro (500 antes de Cristo) e eram usadas como urnas de cremação.

Vinícius e a Plain of Jars
Vinícius e a Plain of Jars

Como não podia deixar de ser, o local também foi muito bombardeado, sendo palco de algumas guerras.

A Guerra do Vietnã na Plain of Jars
A Guerra do Vietnã na Plain of Jars
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Buraco deixado por uma bomba que explodiu no lugar

Até uma caverna serviu durante a guerra como espaço de refúgio para os agricultores locais. Todo o lugar é um dos três Patrimônios Mundiais da Humanidade da UNESCO no Laos.

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Aos domingos em Phonsavan rola o mercado da etnia Hmong. Durante a Guerra do Vietnã, as pessoas dessa etnia ajudavam os norte-americanos, e depois que a guerra acabou, viraram vítimas de um massacre étnico. Muitos se refugiaram na Tailândia, e muitos outros acabaram vivendo em florestas no Laos ou áreas bem afastadas. Uma coisa ruim de viajar para países que você não consegue aprender a língua facilmente é não conversar com os locais para saber se as notícias que você lê são verdadeiras: as fontes que tenho para dizer desse massacre são sites na internet – principalmente norte-americanos, então até que ponto são reais?

Enfim, o mercado é um ponto ótimo pra ver esse povo super sorridente e simpático e comer uma comida típica muito boa! E não tem só insetos! Rolam umas frituras tipo bolinho de chuva bem gostosas, e MUITAS frutas e verduras.

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Mercado Hmong

Depois do mercado fomos parar num bar de karaokê, e foi uma das situações mais engraçadas da viagem cantar em laosiano. O bar inteiro virou amigo de infância nosso mesmo sem trocarmos uma palavra na mesma língua. Foi bom também para descarregar um pouco as cenas tristes que vimos.

Nossos amigos de bar
Nossos amigos de conversa de bar

Documentários para entender a história:

The most secret place on earth: https://www.youtube.com/watch?v=ye2rzEKbz8I

Bombies: https://www.youtube.com/watch?v=6HPH7grVHR0

Boa viagem!

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