Xilitla – o povoado surrealista

“De jeito nenhum voltarei ao México. Não suporto estar em um país mais surrealista que minhas pinturas”. A frase dita por Salvador Dalí ficou famosa no país e foi o que vi desde que cheguei, mas foi em Xilitla que fez todo o sentido. Caveiras feitas de açúcar para as crianças comerem no dia dos mortos, os quadros dos muralistas e de Frida Kahlo, as fotografias de Manuel Álvarez Bravo, as gravuras de José Guadalupe Posada são surrealistas, sem dúvida nenhuma. Mas um castelo surrealista no meio da floresta, um cânion com águas cristalinas sem ninguém em volta, uma cratera de 500 metros de profundidade de onde entram e saem diariamente 2 milhões de andorinhas como se fosse um ciclone são surrealistas só por definição. Xilitla é um dos 83 Pueblos Mágicos do México, um programa da Secretaria de Turismo do México que concedeu o título aos lugares que preservaram sua cultura, história e se encontram no imaginário mexicano como sendo representativo da alma do país, com beleza natural, relevância histórica e riqueza cultural.

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A Sierra Madre (Serra Mãe) Oriental

Localizada no coração da Sierra Madre Oriental, a floresta de pinheiros e que cerca Xilitla é um dos 35 Hot Spots de biodiversidade mundial, regiões que apesar de serem menos de 2,5% da área mundial, representam 75% de toda sua biodiversidade de mamíferos, aves e anfíbios…e estão sob séria ameaça! Para ser considerado um Hot Spot, a região deve ter no mínimo 1500 espécies de plantas vasculares endêmicas (que só existem lá) e menos de 30% de sua cobertura original. No Brasil temos a Mata Atlântica (que falei aqui e foi reduzida a 8% do original) e o Cerrado (a mata mais destruída, que foi reduzido a 50% do original e estima-se que esteja completamente extinta em 40 anos). Na Sierra Madre, as principais espécies conhecidas são o Urso preto, a borboleta monarca, os pinheiros e carvalhos, onça, jaguar e coiote. Suas principais ameaças são a extração de resina e a agricultura, que reduziram a floresta a 37% do original.

Um pouco do que vi em Xilitla
Um pouco do que vi em Xilitla. A borboleta que aparece é a monarca, que chega em bandos de até um bilhão durante o inverno no México.

Informações básicas:

Como chegar: Partindo da Cidade do México, desde o terminal Izabel la Católica ou da Central Norte são 8 horas de viagem. Sempre sai às 21:00 e chega às 5:00, e o preço é 400 pesos (R$75).

Onde ficar: Chegando na cidade, logo achamos um hotel bem simpático no meio da floresta, mas bem perto de onde o ônibus nos deixou, o Hostal del Café (clique para entrar na página). A diária custava uns 30 reais, os donos eram bem antipáticos e grossos, mas o lugar era muito bonito, então acabo recomendando rs.

Hostal de los cafés
Hostal del Café

As atrações:

Logo que chegamos fomos caminhando até a região das Pozas de Edward James, a principal atração da cidade. A caminhada daria uns 4 km, mas no meio do caminho nos ofereceram carona em uma caminhonete =).

Entrada das Pozas de Edward James, o castelo surrealista
Entrada das Pozas de Edward James, o castelo surrealista

A história é a seguinte: um milionário escocês dono de minas de Cobre e de madeireiras nos EUA deixou uma fortuna para seu filho. Pouco tempo depois, o irmão do milionário (que também era milionário) morreu pisoteado por elefantes na África e como não tinha herdeiro, foi para a mesma pessoa – no caso, seu sobrinho. E assim começa a história de Edward James como mecenas.

As mãos de Edward James em concreto
As mãos de Edward James em concreto

Nascido em 1907 na Escócia, o ricaço amante da arte foi parar no México em 1947 fugindo da Segunda Guerra. Quando dava um rolê pela floresta de Xilitla, uma nuvem de borboletas o cercou, e para ele foi um sinal de que ali deveria construir sua casa. Antes do México, porém, já foi tendo contato com o movimento artístico que surgia na década de 1920 em Paris, o Surrealismo.

Vista do quarto de Edward James
Vista do quarto de Edward James

Explicando de uma maneira bem resumida, o Surrealismo foi um movimento artístico entre as duas guerras que quis romper com todas as barreiras da realidade. Breton, que publicou o Manifesto do Surrealismo em 1924 dizia que “Viver e deixar de viver são soluções imaginárias. A existência está em outra parte”. Suas formas são bem oníricas, numa vontade de representar o irreal, o abstrato e estão muito ligadas às teorias Freudianas do inconsciente.

As obras parecem te levar para um quadro do Dalí
As obras parecem te levar para um quadro do Dalí

E é só andar pelo castelo para ver o que isso significa: cogumelos, orquídeas, bambus que parecem chaminés, escadas que levam ao nada, todas essas formas se conectando – e feitas de concreto. Edward James desenhava, e pedia para um carpinteiro de Querétaro (cidade próxima) para construí-las, em um processo que demorou 35 anos.

Mais uma do castelo
Mais uma do castelo

Desde 2007 o castelo foi adquirido pela Fundação Edward James e aberta ao público, que além de apreciar as 200 obras de arte feitas em concreto, tem acesso aos Poços e cachoeiras que ficam ali atrás.

Aí sim, os poços para tomar banho!
Aí sim, os poços para tomar banho!

Mas… Xilitla não é só o castelo! Eu nunca havia visto algo como o Sótano de las Golondrinas (Sótão das Andorinhas), um espetáculo tão impressionante que não tive nem coragem de pegar a máquina para tirar foto, só ficar olhando (então as fotos aqui serão da net). Em uma região em que as rochas são de calcário, mais susceptíveis à erosão, a água foi entrando pelas rochas até que de tanto bater, furou, causando um desabamento e hoje é uma cratera aberta no topo de uma montanha com 513 metros de profundidade e 60 metros de diâmetro.

Imagem tirada do blog https://www.tumblr.com/search/el%20sotano%20de%20las%20golondrinas
Imagem tirada do blog https://www.tumblr.com/search/el%20sotano%20de%20las%20golondrinas

Dentro do sótão, uma população de 2 milhões de “vencejos de cuellos brancos” – em português, andorinhão-preto. Por conta deles, a atração é chegar antes do nascer do sol – que é quando eles saem para se alimentarem – ou quando o sol está se pondo, que é quando voltam para se protegerem e descansarem. Como são tantos e o sótão é tão profundo, o espetáculo dura meia hora, e o formato que fazem é de subirem como um ciclone e passando por cima das nossas cabeças. Encontrei um link no vídeo que representa bem aquilo que vimos: https://www.youtube.com/watch?v=-N1N7PLWCNg. Como a natureza é um campo de batalha e não tá fácil pra ninguém, uma média 5 falcões ficam em volta esperando os andorinhões saírem e assim tomarem seu café da manhã ou seu chá das 5. E sempre alguém tem que se dar mal né… No caso os turistas também se dão mal, porque não tem transporte público pra lá, para chegar só com guia particular bem caro, que nos custou 500 pesos (100 reais). A vantagem é que é um passeio de dia inteiro, pois fazem um combo com um almoço e o passeio pelas Cascadas de Tamul. O passeio dura umas 2 horas pelas águas cristalinas do Rio Santa María acima, chegando até a cachoeira com 105 metros de queda. A beleza é impressionante, parecia que estávamos no Senhor dos Anéis.

Cascadas de Tamul
Cascadas de Tamul

Voltando para a cidade, fomos ao Convento de San Agustín de Xilitla, onde tem feira aos domingos. Em volta, vários bares e restaurantes. Se tiver sorte diferente de nós, poderá assistir à dança típica, “El Querreque”.

Convento de San Agustín de Xilitla
Convento de San Agustín de Xilitla

A uma hora e meia de Xilitla (82 km), no caminho para Querétaro, conheci também a Missão Jesuítica de Jalpan (ônibus a cada meia hora por R$15). A missão faz parte de outras 5 que foram construídas no México e na Califórnia pelos padres entre 1750 e 1760 e são Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Da mesma maneira que as missões jesuíticas do Brasil/Paraguai/Argentina, tem uma história bastante controversa: foram autorizadas pelos reis de Portugal/Espanha para facilitar a colonização da América, porém com o passar do tempo foram se tornando tão prósperas que estavam virando cidades à parte, autossuficientes, com importação e exportação e sem pagar tributos. Começaram também os ataques de caçadores de escravos e foram dissolvidas antes de 1790. Particularmente gostei mais das missões do Brasil, já que as de lá estavam muito restauradas, mas é legal a visita!

Missão Jesuítica de Jalpan
Missão Jesuítica de Jalpan

Extras: 

  • Em Jalpan conheci uma ONG na beira de uma represa que trabalha com os corredores ecológicos da Sierra Madre e me recomendaram esse vídeo que achei bem interessante: https://www.youtube.com/watch?v=NhGK-we1nNk
  • Mais um vídeo, com imagens das Pozas de Edward James: https://www.youtube.com/watch?v=yBpc3I5oaBw
  • A BBC fez um vídeo sobre o Sótano das Golondrinas, numa série sobre cavernas: https://www.youtube.com/watch?v=h2bqxZs0iCc

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E boa viagem!

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